PADRÃO DO SHIBA
O Shiba, diferente de outras raças, conta com a Nihon Ken Hozonkai (Sociedade Japonesa de Preservação de Cães) comumente conhecida como NIPPO. A NIPPO foi fundada em 1928 e recebeu permissão para se estabelecer do Ministério do Interior do Japão em 1937. Como o órgão de registro canino mais antigo do Japão, a NIPPO possui mais de 90 anos de autoridade e tradição.

A missão da Nihon Ken Hozonkai, da qual somos associados, é conduzir pesquisas investigativas sobre todas as facetas dos Nihon Ken (cães nativos japoneses), raças reconhecidas nacionalmente como monumentos naturais; manter um registro genealógico; planejar a melhoria de sua preservação, criação, habilidades físicas e desenvolvimento da raça; apoiar seu uso crescente como cães de trabalho em diversas áreas; e estabelecer contato com vários órgãos e organizações governamentais.
O PADRÃO DO SHIBA DA FCI E DA NIPPO
O padrão da NIPPO tem uma estrutura diversa da utilizada pela FCI (Federação Cinológica Internacional), primeiramente por que se refere às seis raças nativas japonesas, de uma só vez. Ele é individualizado e comentado através de documentos acessórios: as Resoluções de Julgamento. Nessas Resoluções é realizada a individualização da raça, quando é o caso. Ele foi promulgado em 1934 e está atualizado até 2024
FCI: Olhos: Triangulares, não tão pequenos, e de cor marrom escuro. Os cantos exteriores
dos olhos são ligeiramente levantados.
NIPPO: Olhos: Aproximadamente triangulares, com cantos externos elevados, iris exibindo uma cor marron escuro profundo. Com forma aproximadamente triangular, canto externo do olho levemente elevados, olhos posicionados mais para dentro no crânio transmitindo uma sensação de força. Íris pretas, assim como o oposto — íris de cor clara — não são desejáveis. Um tom castanho-escuro profundo é o ideal.
Por exemplo, nele os olhos são definidos da mesma forma para todas as seis raças, mas são distinguidos pela angulação da inclinação, no Akita, no Shiba e nas demais: é igualmente importante para a forma correta possuir a apropriada inclinação para cima no sentido do canto externo do olho.

Demasiada inclinação produz uma expressão severa, enquanto muito pouca produz uma aparência suave. Para desenhar o ângulo correto de inclinação, imagine uma linha reta indo do canto interno do olho até que toque a orelha. Se a linha tocar o lado da cabeça exatamente no ponto mais baixo de inserção da face externa da orelha, esse é o ângulo correto de inclinação do olho (para o Shiba). Note que ambos os padrões definem a mesma regra, mas a NIPPO vai mais a fundo especificando como calcular o ângulo.
Assim, a FCI traça padrões objetivos porém mais sintéticos, para facilitar sua aplicação em termos mundiais. A NIPPO, com o conjunto Padrão + Resoluções de Julgamento desce a detalhes bem maiores e os complementa com diagramas em que fixa medidas, ângulos, formatos.
DIFERENÇAS DE ABORDAGEM
O Padrão NIPPO, criado em 1934
Fortemente ligada aos ideais culturais japoneses de kansei (senso estético) e wabi-sabi (simplicidade natural), a raça Shiba enfatiza características que refletem seu papel como cão de caça em terrenos montanhosos.
Baseada em registros históricos, exemplares nativos sobreviventes e valores tradicionais japoneses. Os árbitros são treinados para avaliar os cães não apenas por suas características físicas, mas também por seu kan-i (espírito audaz), ryosei (boa índole) e soboku (simplicidade refinada).
Foco desse padrão é a preservação da autenticidade, temperamento e identidade japonesa. O padrão é considerado mais rigoroso e holístico, integrando qualidades físicas e psicológicas.
O Padrão FCI, criado em 1992 (59 anos depois)
Adotado pela Fédération Cynologique Internationale (FCI) utilizando a versão do padrão NIPPO do Japan Kennel Club (JKC) como base, foi projetado para uniformidade global, tornando o Shiba reconhecível e comparável em exposições caninas internacionais.
Ele foi traduzido e adaptado do original japonês, mas simplificado em características mensuráveis (altura, peso, pelagem, cor, proporções), tendo menos ênfase na filosofia cultural e mais na descrição física padronizada.
Foco: Acessibilidade para criadores e juízes internacionais. Prioriza clareza e consistência para competições mundiais em vez da preservação cultural.
COMO NOS POSICIONAMOS
Considerando que os padrões são harmônicos entre si, mas que o da NIPPO traz explicações mais detalhadas, decidimos adotar o padrão da FCI como referência principal para a exposição, complementando-o com os esclarecimentos da NIPPO sempre que disponíveis, e destacando eventuais divergências quando houver.
Acreditamos que a utilização conjunta dos dois padrões — ambos descrevendo o mesmo animal, mas com estilos e enfoques distintos — proporcionará uma visão multifacetada e mais rica do que deve ser o Shiba ideal.
Conciliar essas diferenças, no entanto, não será tarefa simples. Faremos o possível para alcançar o melhor resultado.
IMPORTÂNCIA DOS FATORES
É intuitivo que os fatores de julgamento têm importâncias distintas. No Shiba, aceita-se que orelhas, olhos, cauda são preponderantes para sua caracterização.
Mas, a NIPPO, em coerência com a cultura nipônica, introduz um sentido filosófico ao padrão, valorizando posturas e caráter dos animais. Assim que o único valor em que a importância relativa é determinada nas orientações de julgamento é o da personalidade e expressão (Qualidades Essenciais) que recebem 15 dos 100 pontos possíveis no julgamento.
A NIPPO não publica uma tabela oficial de ponderação, para cada fator de julgamento, mas juízes experientes e notas de seminários sobre julgamento divulgam pesos amplamente aceitos nas pistas. Das discussões sobre julgamento na NIPPO e seminários sobre julgamento, podemos dizer que os pesos são aproximadamente os seguintes:
O TIPO—Essência e sua expressão (face, cabeça, alerta e postura) representam 30 a 35 por cento do peso do julgamento na NIPPO, sendo que somente a Essência e expressão valem 15%.
Olhos, orelhas, formato da cabeça e a aparência geral de um Shiba são considerados fundamentais; o cão deve conformar um Shiba. Os juízes devem avaliar primeiro o tipo e a seguir os detalhes.
Estrutura e Movimento (equilíbrio, linha superior, angulação e ação) representam 25 a 30%.
Proporção, ossatura, linha superior, inserção da cauda e forma como o cão se move; o Shiba deve ser compacto, de ossatura seca e flexível. A marcha é normalmente avaliada após a “imagem geral” e o temperamento, mas antes da pelagem e cor.
Pelagem e cor representam 10 a 15%
A textura (pelagem externa áspera, subpelo denso, pelagem da cauda correta) e o padrão de cor (vermelho, preto e castanho, sésamo; marcações urajiro e brancas corretas) são importantes, mas secundários ao tipo e à estrutura.
Mordida e dentição, inserção da cauda e outros detalhes representam 5 a 10%
As resoluções da NIPPO detalham as deduções de pontos, a prognatismo/retrognatismo é penalizado simetricamente; isso implica que a dentição representa uma parcela menor, porém definida, da pontuação.
O tipo de cauda (foice, espiral fechada, espiral em forma de tambor) e a inserção correta da cauda são considerados características-chave da raça, mas não recebem a mesma pontuação que o tipo geral e o temperamento.
A seguir estão as 12 seções do Padrão Nihon Ken:
1. Qualidades essenciais e sua expressão: Onde se aplicam os 15 pontos para Kan-i, Ryosei e Soboku.
2. Aparência geral: Foco no dimorfismo sexual, equilíbrio estrutural e na proporção de 10:11.
3. Orelhas: Pequenas, triangulares, inclinadas para a frente e firmemente eretas.
4. Olhos: Quase triangulares, com cantos externos elevados e cor castanho-escuro profundo.
5. Focinho: Cana nasal reta, lábios firmes e dentição robusta (42 dentes com mordedura em tesoura).
6. Cabeça e Pescoço: Testa larga, bochechas bem desenvolvidas e pescoço poderoso.
7. Membros anteriores: Escápula moderadamente inclinada e antebraços retos.
8. Membros posteriores: Postura firme, coxas bem desenvolvidas e jarretes resilientes.
9. Peito: Profundo (pelo menos 45-50% da altura), com costelas moderadamente arqueadas.
10.Dorso e Quadris: Dorso reto e quadris robustos que não oscilam durante o movimento.
11.Cauda: Grossa e poderosa, em forma de foice (sashi-o) ou enrolada (maki-o), chegando perto do jarrete.
12.Pelagem: Pelo de cobertura rígido e reto com subpelo macio e denso; cores sésamo, vermelho, preto e castanho ou branco,
No Brasil pela FCI não existe a cor branco ou creme, no Japão da NIPPO ela existe, pode ser julgada, mas não pode receber “Excelente”.
DESMISTIFICANDO A “RAPOSINHA”
O padrão FCI Nº 257 (do Shiba) não usa a palavra “raposa” ou qualquer termo similar. Em vez de descrever a aparência da cabeça, ele a decompõe em componentes geométricos e estruturais projetados para garantir força, em vez dos traços mais finos e pontiagudos de uma raposa.
FCI: Cabeça: Concentra-se em uma “testa larga” e “bochechas bem desenvolvidas” além de Focinho: Moderadamente espesso, mas nunca afilado ou pontiagudo.
O padrão NIPPO não apenas omite a palavra “raposa”, como também, nos julgamentos e comentários, uma aparência “parecida com a de uma raposa” é considerada indesejável.

Na terminologia cinológica japonesa, historicamente existem dois tipos distintos de cabeça discutidos coloquialmente:
kitsune-gao (rosto de raposa): caracterizado por um crânio mais estreito, um stop menos pronunciado e um focinho mais longo e pontudo.
tanuki-gao significa literalmente “cara de tanuki” e descreve cães cujo formato facial lembra o tanuki, o cão-guaxinim japonês. É um termo usado para classificar a expressão e proporções da cabeça em certas raças japonesas, em contraste com o estilo kitsune-gao (“cara de raposa”). Caracterizado por uma testa mais larga, bochechas mais grossas e desenvolvidas e um focinho mais forte.

Os juízes da NIPPO penalizam severamente um focinho afilado ou a falta de volume nas bochechas. A expressão ideal do Shiba depende de bochechas fortes e bem desenvolvidas e um stop definido, tornando o tanuki-gao
o tipo estruturalmente correto e preferido nas exposições. Um cão considerado “parecido com uma raposa” estruturalmente carece da substância.
DE ONDE VEM A REFERÊNCIA À RAPOSA?
A confusão quase sempre se origina do padrão do Shiba do AKC (American Kennel Club). O AKC é o único grande registro internacional que inclui explicitamente essa menção “foxlike” em seu texto oficial, quando trata do urajiro como requisito.
Ao analisar ou comentar o padrão da raça internacionalmente, é crucial fazer essa distinção: os padrões norte-americanos adotam o descritor “semelhante a uma raposa” para a expressão, enquanto os padrões japonês e da FCI se concentram na estrutura física (bochechas largas, focinho grosso) que se afasta ativamente de uma estrutura vulpina.
Mesmo no padrão do AKC, foxlike não se refere a uma estrutura óssea fina, focinho pontiagudo ou mandíbulas frágeis, mas sim a cor laranja avermelhada vibrante, o Urajiro e à expressão alerta e perspicaz. O Shiba é um cão rústico de montanha, sua face deve refletir robustez, não fragilidade
Portanto, não nos ativemos a outros padrões para a raça Shiba, como o do American Kennel Club, o do The Kennel Club e o do Dog Australia; entretanto, eles não se mostram essenciais para este trabalho.
